(Comente)No dia 01 de outubro de 1986 saí de casa para votar naqueles que seriam os novos dirigentes de meu país naquela época. Eu morava em São Paulo, onde cursava a noite, pós-graduação em análise de sistemas na FECAP. De dia trabalhava como gerente comercial de uma corretora de seguros da Rua 7 de Abril. Eu tinha então 28 anos e desde os 15 gostava de política. Era filiado a um partido nanico, o PMC – Partido Municipalista Comunitário, visto que meu colega de trabalho e amigo era seu presidente nacional, o jornalista Armindo Mosca – que era presidente da União Brasileira de Imprensa.
A metrópole São Paulo vivia uma efervescência política, visto que desde o ano anterior, quando o ex-presidente Jânio Quadros havia ganhado a eleição para prefeito, o termômetro político havia esquentado muito. Fora uma eleição com pesos pesados da política nacional na disputa. Para governador disputavam: o conhecido Paulo Maluf, o mega empresário do Grupo Votorantim Antônio Ermírio de Morais e o então Senador Oreste Quércia, do PMDB, que vencera a eleição. Na chapa ao senado, venceram Mário Covas e Fernando Henrique Cardoso, que vieram a ser respectivamente governador e presidente da república por dois mandatos.
Saí de casa bem cedo para votar no Colégio Dom Bosco, um colégio de religiosos católicos localizado no bairro do Bom Retiro, próximo a estação Tiradentes do metrô paulista. Eu tinha que votar também para deputado federal. Quando saí de casa estava para decidir entre dois candidatos … e só decidi quando cheguei em frente ao colégio.
Votei no número 1371 para deputado federal, que era o líder sindical Luís Inácio Lula da Silva, na época eleito com mais de 600 mil votos, o deputado mais votado do país. Votei nele porque notei que já era injusta a ditadura que oprimia o trabalhador brasileiro e pensei; um líder operário poderia defender bem os interesses do povo naquela legislatura que seria para elaborar a nova Constituição Brasileira, promulgada em 1988.
No mês de outubro de 2002, o candidato que votei em 1986 para deputado federal fora novamente candidato e desta vez ganhou para Presidente da República.
A um tempo atrás, ele fora em visita a França, sendo recepcionado pelo Presidente Chirac, e falou em português ao povo francês.
Se Lula falasse francês… o discurso na Sorbonne poderia ter sido de improviso…
Se Lula falasse francês… poderia ter imitado os políticos mineiros e cochichado no ouvido do presidente da França.
Se Lula falasse francês… teria provocado inveja em milhões de inglezes e americanos.
Se Lula falasse francês… ele teria aprendido a falar depois que se tornou político, pois operário no Brasil não tem dinheiro para frequentar academia de idiomas.
Se Lula falasse francês… economizaria aos cofres públicos o cachê de seu ghost-writer poliglota.
Se Lula falasse francês… não teria como falar ‘Paloffi’ aos empresários, prejudicados seriam por perderem a oportunidade de ouvirem a voz cultural de um nordestino da gema.
Se Lula falasse francês… talvez defendesse uma tese adaptando a Linha Maginot de De Gaulle para o combate à corrupção, à miséria e a espoliação mundial dos ricos.
Se Lula falasse francês… quem sabe poderia engarrafar o eco da voz de um presidente brasileiro dentro do Louvre e reproduzir em disco para seus compatriotas.
Se Lula falasse francês… ele poderia ter agradecido em sua língua pátria ao dirigente da empresa Airbus, fabricante do moderníssimo avião presidencial.
Se Lula falasse francês… poderia ter falado ‘vache’ ao invés de vaca, ao dizer à Europa que o terceiro mundo se escandaliza por ver seus subsídios veterinários serem mais opulentos que seus subsídios pediátricos à África.
Se Lula falasse francês… talvez não teria tanta dificuldade em saber que a Paris da floresta amazônica é sede da polícia que não conseguiu impedir a morte de irmã Dorothy.
Se Lula falasse francês… talvez tivesse mais facilidade de entender que o salário médio de um professor na Europa geralmente está acima de 10 mil reais.
Se Lula falasse francês… talvez o embaixador Celso Amorim já tivesse sido nomeado secretário-geral da ONU.
Se Lula falasse francês… e em homenagem à França, talvez o preço da baguete no Brasil tivesse baixado.
Se Lula falasse francês… e em homenagem ao brasileiro Santos Dumont, que morava na França, o preço das passagens aéreas no Brasil fosse bem mais baratas.
Se Lula falasse francês… poderia ter perguntado na Europa se eles têm notícias do “or” (significa ouro em francês) que nos últimos 500 anos desapareceu daqui.
Se Lula falasse francês… poderia ter explicado na França porque o General De Gaulle disse no Rio de Janeiro há muitos anos atrás que “esse não é um país sério”.
Mas como vimos, Lula não fala francês, ele falou em português ao povo da França. Eu atualmente não gosto mais de política; de tanto nojo da corrupção dos políticos que convivi aqui no Brasil. Muitos professores continuam ganhando 500 reais, bem diferente dos franceses. Os preços das passagens aéreas para tristeza de Santos Dumont continuam escorchantes. A baguete continua cara e sendo vendida somente nas padarias da classe rica. O ouro brasileiro cada dia mais escasso, enquanto a miséria cada dia mais abundante. E na Europa e nos Estados Unidos uma vaca continua recebendo mais subsídios do que milhões de crianças do terceiro mundo.